25 junho, 2013
O furacão da música pop encontra o furacão da publicidade pop e a conversa, claro, vai da música para a estética e para a vida. Roberto e Erasmo, Jorge Ben, a bossa nova, o preconceito contra o rock – e o direito de gostar de Michel T
Washington Olivetto conhece Lulu Santos há 30 anos, por aí. Os dois podem ficar dois, três meses sem se ver, mas a amizade continua lá, próxima, forte, afetuosa.
“Gore Vidal me falou uma vez, na piazzetta de Ravello, sobre o orgulho de ter certos amigos”, diz Washington. “Tenho o direito de ser mais orgulhoso de meus amigos que o Gore Vidal” [não estranhem, Washington fala de gente como o escritor Gore Vidal, que faleceu este ano, com uma intimidade espantosa].
W e Lulu se encontraram no apartamento do publicitário em Ipanema, num daqueles diáfanos finais de tarde bem cariocas. Lulu Santos avisou: “Não dou entrevista.” Mas o cantor-compositor pop aceitou travar, para Status, esse inspirado dueto com o publicitário pop. A música dá o tom da conversa – não poderia ser diferente. Mas o encontro é também uma lição de vida, de verdade e de paixão.
“Se tem alguma coisa que eu admiro, Washington, é a generosidade como você lida com o talento dos outros”, começou Lulu. “Sem ciumeira, sem torcida contra”. Washington se fez de modesto: “O que você chama de generosidade, Lulu, eu chamo de esperteza. Admirar pessoas que merecem ser admiradas é coisa que realimenta.”
Lulu Santos está hoje sob os estridentes spots do The Voice Brasil, apresentado nas tardes de domingo pela Globo. É o velho programa de calouros repaginado para o terceiro milênio. Ao lado de Claudia Leitte, Carlinhos Brown e Daniel, Lulu revela toda a versatilidade de um genuíno bicho do palco. Palpita, ensina, serve de padrinho, vota, canta, dança e sapateia (de repente, olha ele lá cantando junto com Erasmo Carlos). Lulu é um príncipe do humor e da alegria. Ele assume: “O importante é criar felicidade nas situações que você vive e não impedir de transferir essa felicidade para os outros.” Pouca gente faz isso tão bem quanto Lulu.
Washington Olivetto – Subir num palco e se jogar de corpo e alma para a plateia é o jeito mais glorioso de ser generoso?
Lulu Santos – Eu transfiro admirações, é assim que quero ser como artista. Fazer um show com músicas do Roberto e do Erasmo e, de repente, ver o Roberto lá na sua plateia é o que chamo de inveja saudável. Quando alguém tem a capacidade de admirar o outro, facilita.
W – Como foi isso?
Lulu – As pessoas aplaudiam, aplaudiam, mas aí eu percebi que não olhavam para o palco, olhavam para o lado, ou para trás, e aplaudiam. Estranhei mas logo vi que era o Roberto que estava lá.
W – Você tem alegria no que faz. Eu diferencio ego e autoestima. Você, Lulu, tem uma autoestima que faz com que tudo seu seja grande, excepcional, extraordinário.
Lulu – No Brasil a gente tem um pouco de dificuldade com a noção de orgulho. Sujeito orgulhoso é malvisto. Em inglês, fala-se em pride o tempo todo. Nós temos esse viés de culpa, esse temperamento melancólico da contrarreforma. O contraponto é encontrar nos outros esses oásis de vida e do deixa viver. A gente nunca se enche o saco, né Washington?
W – Nunca. É só pegar o telefone que vai ter o outro do seu lado. Conta mais desse show Roberto-Erasmo.
Lulu – É um projeto alavancado pelo Banco do Brasil. Intérpretes escolhem seus compositores. Maria Betânia faz Chico Buarque. Sandy incorpora Michael Jackson. Eu escolhi Roberto e Erasmo. Nesse momento pareço uma companhia de repertório. Numa noite posso estar no Teatro Castro Alves, em Salvador, com Roberto e Erasmo e, no dia seguinte, na Feira Agropecuária de Itaipava, fazendo o Toca Lulu.
W – A empresa Lulu Santos…
Lulu – A Companhia Lulu Santos de Repertório tem dois espetáculos. O Toca Lulu e…
W [com ironia] – …e um espetáculo um pouco menos popular, mais erudito, que é Roberto e Erasmo.
Lulu – O encontro do Roberto e Erasmo com uma plateia é ex-plo-si-vo. Quero me dedicar muito a esse espetáculo ano que vem. Quero sair da minha própria pele. Quero voltar a fazer um pouco a antirrede social. O que é hoje viral antigamente se chamava de boca a boca. Tem determinadas práticas que parecem que foram inventadas pela internet, mas foram apenas renomeadas e talvez rodem com velocidade maior.
W – Redes sociais são as velhinhas de uma aldeia italiana contando pra todo mundo que a filha da vizinha agarrou alguém.
Lulu – Velho como o telefone sem fio. Por que Irma Vap ficou dez anos em cartaz? Viral é o boca a boca. A gente deve gravar o show Roberto e Erasmo, o Roberto deu o imprimatur. Quero uma coisa legal, ao estilo dos Tribalistas. Mas prefiro continuar convencendo as pessoas pessoalmente, casa cheia a casa cheia.
W – Vi a estreia, as pessoas ficaram maravilhadas, aquelas músicas superconhecidas, mas senti certo incômodo. A ponto de um cara gritar, “toca uma do Lulu Santos”…
Lulu – Toca Lulu. Virou nome do outro espetáculo. Você chegou no camarim e disse: “Que coisa, você chega com um repertório desses e ainda assim consegue que as pessoas peçam pra você tocar você mesmo.” [ri] Gostei da ideia do Toca Lulu. E tem essa aliteração do “Toca Raul!”.
W – Canções sensacionais, as do Roberto e Erasmo.
Lulu – Eleitas pelo povo, elas ganham dimensão e gravidade à medida que o tempo passa e o uso as consagra.
W – Algumas, aposto, responsáveis por você, Lulu, fazer na vida o que faz hoje.
Lulu – Conheço o Roberto desde 1974… 1974! Toquei com o Roberto no Canecão em 1974. Ele me trata igual desde que eu era rigorosamente ninguém, apenas o garoto que estava substituindo o cara que tocava sintetizador e teve de viajar pros Estados Unidos. Por três fins de semana, subi com Roberto Carlos, Coral & Orquestra no palco do Canecão para fazer o show, dirigido pelo Ronaldo Bôscoli. Eu tinha 20 e poucos anos.
W – E todo mundo queria ser o Roberto Carlos na época. O Ritchie bem que tentou.
Lulu – Pelo menos foi da mesma gravadora [ri]. Mas o Ritchie sabia muito bem o que fazer. O primeiro disco dele vendeu um milhão e 200 mil cópias.
W – Neste show, você provavelmente mostrou para o Roberto um jeito diferente de fazer o que ele fez – uma leitura nova para um trabalho que ele gostaria de ter.
Lulu – Provavelmente.
Amigos para sempre: Washington Olivetto e Lulu Santos em um bate-papo para a Status no apartamento do publicitário em Ipanema
W – Isso é generosidade no melhor sentido.
Lulu – É aí que volto ao mesmo ponto. Toda generosidade se reverte para você mesmo. A volta cósmica é bem bonitinha. Naquela noite do Roberto fui dormir me sentindo no topo do mundo. Porque ali eu tenho completa validade. Ninguém pode contestar o meu direito de reprocessar um fato legítimo da cultura brasileira. O pop nacional tem 50 anos. Vamos parar com essa história, gente! Quando houve os 50 anos da bossa nova, foi aquela coisa toda. Acabaram até levando o Roberto para cantar Tom Jobim junto com Caetano. Quando, na verdade, lá atrás, Roberto era uma alternativa àquilo. O tempo todo ele era malvisto pelo pessoal da bossa nova.
W – E só optou pelo pop porque não deixavam que ele fosse pra bossa nova.
Lulu – É verdade, não deixavam. Tem um personagem a quem o Brasil deve um filme: Carlos Imperial.
W – Biografia, ele tem.
Lulu – Você me prometeu, esqueceu? Imperial foi o grande vértice. Você o conheceu pessoalmente?
W – Não só conheci como fui vítima dele.
Lulu – Olha aí. Também fui vítima dele.
W – Ele tentou literalmente me extorquir.
Lulu – Está vendo? Cada vez mais aumenta a minha admiração!
W – Quis fazer um comercial com uma canção do Eduardo Araújo, Ele é o bom. Que o Imperial registrou numa outra editora em nome dele. O Imperial tinha uma coluna numa revista…
Lulu – Na Amiga… ele era da pesada… Um gângster, totalmente autoinventado. Ninguém sabia de onde tinha surgido aquela criatura.
W – Ele acabou me ligando, me ameaçando. Liguei pro André Midani, com quem, aliás, você, Lulu, já teve todos os afetos e todas as contendas da vida…
Lulu – Meu amor, não fui eu quem tirou a biografia dele das bancas e das livrarias. Não tive nada a ver com isso. Alguma ele ia fazer com alguém para dar nisso.
W – Liguei para o André, e ele, “não se mete com o Imperial, ele é uma encrenca monumental”. Foi no início dos anos 1980. Acabei indo almoçar com ele no La Tambouille. Ele me disse, “quero é que você use muita coisa minha em seus comerciais, até porque sou dos poucos compositores [ele me contou isso numa boa] que já compunha antes de nascer. Tenho os direitos do Cai, cai, balão!, registrei o Atirei o pau no gato”. Ainda me convidou para ir ao Rio. “Tenho um sítio meu aonde levo umas lebres para abater…”
Lulu – Dizia que praticava o cochivilianismo. As colunas começavam assim: “Estava aqui abatendo umas lebres, praticando o cochivilianismo…” Foi o Imperial quem tirou o Roberto Carlos da bossa nova. Disse, “meu amigo, vai por aqui”. O Erasmo era secretário do Imperial, arrumava as notas da coluna. Erasmo escrevia: “O cantor e compositor Erasmo Carlos lança seu novo compacto, os brotos estão em delírio.”
W – O Simonal também trabalhou com ele.
Lulu – Foi Carlos Imperial quem articulou o iê-iê-iê no Brasil. Tinha visão de mercadologia, aquela atitude pop ele já tinha sacado. Grande talento da produção.
W – Você disse: 50 anos de rock brasileiro e ainda tem gente que torce o nariz. Você, que é reconhecidamente um músico excepcional, também sofreu com isso?
Lulu – Fui totalmente singularizado como o representante das piores coisas desse negócio por causa da popularidade e do romantismo. Qualquer coisa que fosse mais punk, mais própria dos modelos originais de fora, era mais recomendável do que eu. Na crítica, na imprensa. Mas, pra mim, não fez a menor diferença. A elite… a elite não tem o tchum, o tchá. Tem sempre aquela coisa: devemos ou não devemos gostar?
W – Podemos ou não podemos gostar?
Lulu – Eu estava ouvindo ontem o Michel Teló. Não conheço direito, ouvi a música dele uma vez no Réveillon, em Maceió, grana excelente, maravilhoso, melhor do que contratar bufê e fazer uma festa… Este ano vamos a Punta del Leste. Depois do show da gente, a única coisa que o DJ pôde botar foi Michel Teló. Ah, então, é isso! Agora que está legal no mundo inteiro ser Brasil – interessante essa perspectiva – li na Time que Michel Teló, na Olimpíada, funcionou para a torcida inglesa, cara! Fiquei besta. A Inglaterra feliz, mais de 60 medalhas, todo mundo contente com o resultado, acabou aquele negócio do ha-ha. O inglês faz a diferença entre expect e hope, expect the worst, hope for the better and work with what comes. Sensacional a lógica da alma nacional, exposta assim abertamente. Se preparar para o pior.
W – Nem choveu na Olimpíada.
Lulu – Nem choveu. Bateu um jubileu legal, pegaram aquela onda da rainha. A rainha caindo de helicóptero com o James Bond. Tem alguma coisa melhor que isso?
W – Monty Python total. Mas, Lulu, essa divisão rock versus MPB que a gente estava falando me parece artificial. Você e muitos do chamado rock brasileiro dos anos 1980 fazem uma releitura constante da música popular. Penso, por exemplo, na presença do baião na sua música.
Lulu – Eu sou brasileiro, não vou escapar disso, não. Agora, então, que está bom ser brasileiro… [risada]. Isso é uma coisa que a tropicália já tinha resolvido havia muito tempo, né? Essa questão moral. Parece que a gente está ficando esteticamente mais conservador, exigindo das coisas um certo academicismo.
W – Me perguntaram se eu ouvia Michel Teló, eu disse, “claro que ouço, eu ouço tudo, bicho”.
Lulu – E por que não?
W – Você pode até não procurar por ele, mas ele procura você, vem a você. O barato do sucesso de Michel Teló é o mesmo dos livros de Paulo Coelho.
Lulu – Qualquer sucesso é bacana. Por que moralizar o sucesso? Sucesso é quando o sujeito encontrou sua própria lógica. Pode usar ou não usar. Melhor quando usa. A tropicália serviu pra isso, muito tempo atrás.Tirou a culpa do artista.
W – Cada movimento gosta de dizer, “nós somos o bom gosto”.
Lulu – Vou fazer uma denúncia. Tem uma coisa estranha aí no aficionado da bossa nova pelo jazz. O jazz era uma coisa datada quando a bossa nova apareceu. Aquilo já não estava funcionando como referência.
W – A importação musical era lenta naquela época.
Lulu – Era lenta, mas a bossa nova olhando pro jazz era pegar uma rabeira histórica enganada. Tem um equívoco aí. Não estou falando em falta de patriotismo, essas coisas. A bossa nova foi posta como filtro exclusivo de bom gosto contra quase tudo. No livro de Ruy Castro, ele exalta a bossa nova contra “a sanfona cafona de Luiz Gonzaga”. Acho Luiz Gonzaga tão ou mais importante que toda a bossa nova. Mas eu gosto mesmo é de rock’n’roll, quer saber? E de rhythm & blues. Menos de rock e mais de roll. A parte boa, a que rola.
W – Não dá pra fazer dieta de música.
Lulu – Não dá. Mas se tiver de escolher, é R&B. Na verdade, não gosto de rock de branco. Gosto de hip hop, gosto de funk. Presto atenção em artista negro. Seja Tim Maia, Seu Jorge ou Martinália.
W – Um dos orgulhos da minha vida foi ter feito a aproximação sua com o Jorge Ben.
Lulu – É, e também não adiantou nada [ri], ele é tão autoexistente, “oi, oi”, fim de papo. Encontrei o Jorge no encerramento do Festival de Garanhuns, no aeroporto. Ficamos disputando, o grupo dele e o meu, qual era o último a entrar no avião. Na porta, o cara da companhia pediu: “Identidade”. E o Jorge: “Pô, pô, identidade?” E olha a cena: lá vai o Jorge Ben abrir a carteira e produzir um RG pra poder embarcar.
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